Não era precisamente um garoto e, houve um tempo em que, na disputa mental entre o calendário e seus hábitos e costumes, a vantagem era do passar dos anos. Talvez por isso tenha se surpreendido e tenha sentido um choque elétrico bem no fundo da sua adormecida masculinidade.
É claro que o local era o suficientemente boêmio para fazer, desse comentário, primeiro uma carícia a um ego maltratado e, junto com isso, um coquetel molotov que tornaria a frase, a mulher estrangeira e o local gravuras imortais na memória desse homem.
Ambos sabiam que não tinham como referendar o elogio e a gratidão. Ela talvez pudesse. H não. Ao empecilho do tempo que restava para retornar a seu labirinto existencial, havia que acrescentar que seu vínculo com a estrangeira era bem mais de empatia pelas experiências comuns que uma questão física, ou química.
Nos últimos tempos, H estava cada vez mais convicto que nada sacudiria sua tranqüilidade. Por isso, quando “ganhou” essa frase altamente gratificante, ficou ainda mais feliz porque não tinha como dar continuidade ao que, anos antes, com inexperiência e empolgação maiores, sem duvida o levaria a consumar a conquista. Justamente o fato de não poder fazê-lo, permitiu uma paz de espírito, a não pressão de ter que se provar e provar para a “gringa” que a percepção dela não estava nem um pouco errada.
H se sentiu pleno, leve e contente com a liberdade total de decidir o que fazer. Ou, para melhor dizer, passar para a francesa que ele era livre e que decidia não ir fundo porque curtia muito mais as palavras recebidas que estragá-las com ações que acabariam por vulgarizar o “misticismo” da situação.
Sabedoria dos anos ou perda dos reflexos sexuais mais básicos diante dum estímulo?
Essa noite, H não se tomou o trabalho de analisar, nem a possibilidade de duvidar. Olhou nos olhos azuis dela, mostrou um sorriso levemente cúmplice e mal-intencionado e continuou na cadência da música que estava tocando e que arrastava à multidão pelas vielas da cidade velha. “O prazer tem essas curiosas hipérboles com as que ele pode se expressar” pensou, enquanto se deixava levar pelo som do trombone, a percussão e um violão que, acompanhados por uma vez feminina digna de uma sereia que ninguém teria conseguido se afastar.
Pela primeira vez em muitos anos, o bom doutor se libertara de seu racional para se entregar ao som e ao encanto de uma dança como se estivesse possuído, ou sob algum encantamento. Na verdade o rum e o calor doce e aconchegante da praia equatorial, combinado com o maravilhoso rebolar desse corpos quentes e a alegria imensa que os dentes incrivelmente brancos irradiavam em cada um dessas centenas de sorrisos foram suficiente para tirá-lo da razão.
Já a turista se entregava freneticamente à bebida, cigarro e aos braços dos muitos moradores locais que a procuravam para dançar. O que há de melhor para uma mulher que ser cobiçada por um monte de homens no mesmo local à vista de todos eles? H pensou que ela estava mais do que feliz, no clímax da felicidade e por isso mesmo, porque muitos homens conseguiam fazê-la sentir assim, ele não tinha mais responsabilidade com isso. Podia ser feliz sem peso na consciência, sem ter obrigação de retribuir. Era a sensação mais leve e prazerosa que sentira em anos.
- E aí que reside o segredo. O perigo de tudo – pensou em um rápido momento de lucidez. A felicidade pessoal atrelada a fazer feliz o outro, é uma dificuldade, concluiu H. E voltou a cair no ritmo, encheu a boca com o último gole de rum e, timidamente, balançava ao som da música e das pessoas em volta dele.
Foi assim que decidiu, repentinamente, atravessar a multidão em direção a ela. Não foi fácil, as ruas eram estreitas, cheias de paralelepípedos e de gente. Quem quebrava o vaivém da multidão precisava se esforçar muito para sair da corrente. H sabia disso mas não se importou. Pacientemente chegou à francesa, e olhou mais uma vez nos olhos azuis. Nesse momento, pareceu que não houvesse mais música, mais multidão, mais nada. Foi breve. Colocou suas mãos em torno do rosto dela e a beijou na boca, com um beijo doce, que nada tinha a ver com uma instigação. Um beijo quase de agradecimento. Depois, desandou o caminho que tinha feito e foi embora, deixando para trás a música, as vielas, a multidão e a tristeza e melancolia que o perseguia e que, mais cedo ou mais tarde, o alcançaria novamente.
