Feeds:
Posts
Comentários

O equilibrista não sou eu, ou sim. É Joaquín Sorel, ou sou eu.
Por que esse nome? Pelas iniciais.
Muitas personalidades da história moderna, em diversas áreas, se destacaram com estas letras iniciando seus nomes.
Jonas Salk, José Stalin, Julio Sosa, Joaquín Sabina, Juan J. Saer, Jerry Seinfeld, José Saramago, Jean P. Sartre, Javier Saviola, Julio Salinas, Juan P. Sorín, João Saldanha, Joan M. Serrat…
Durante um tempo pedi ajuda de amigos e colaboradores para juntar esses nomes, e quem quiser pode deixar mais dizendo porquê acrescentaria ele.
Todos eles tem a curiosa coincidência que as letras JS parecem favorecer o sucesso naquela área que encaram e assim, fugir do anonimato. Tornar-se célebres. Estes são alguns exemplos que não pretendem ser politicamente corretos, como eu que também não estou interessado em sê-lo, mas mostrar a notoriedade alcançada pelos nomeados sujeitos.

Entra, clica e pesquisa nas diferentes categorias… se gostares da leitura e de rir de ti mesmo

Contato e sugestões

equilibristaxxi@gmail.com

Passei um bom tempo enclausurado. Passei porque quis. Estava curtindo meu momento. Feliz. Tirando a poluição da alma. Mas nunca sai. Nem uma nem a outra.

É que vida de quem escreve não é mole. Não é fácil. Acaba se perdendo na confusão dos outros. E achando a sua própria. 

Dos contos escritos, sempre tive o maior carinho. Representam e representaram alguns elogios, algumas críticas, malentendidos. Mas fazem parte de mim. Não há como nem porquê negâ-los.

Passou o tempo, nem muito nem pouco. Passou. E agora decidi voltar. Apenas porque é bom. Apenas porque é preciso. Porque contar histórias pode ser engraçado.

É claro que H, das histórias, já foi procurado. Estou aguardando seu retorno.

Não sei o que ele está fazendo, perdemos um pouco o contato. Mas sei que vamos nos encontrar, choppinho mediante, e colocar o papo em dia. 

Há tantas coisas para lhe falar… Se você soubesse. 

Até breve , meu caro amigo.

Pára com isso

No outro dia, eu reparava a trilha sonora que me acompanhava na espera da consulta do dentista. Logo após isso, o som dos aparelhos utilizados por ele perturbava ainda mais meu espírito.
Aí eu decidi refletir em como são meus dias e avaliar quais medidas devo levar adiante para melhorar a qualidade dos estímulos auditivos recebidos por mim.
É um assunto complexo e muito difícil, já que é impossível fechar os ouvidos. Pode-se fechar os olhos, a boca, e se alguma coisa cheirar mal, até tampar as narinas… mas e os ouvidos? Mas mesmo assim, assumi uma atitude.
Pode até não parecer sério. Mas é. É uma questão de saúde. Cansado de incentivar os meus neurônios com músicas no rádio ou de ouvir isoladamente o walk-man, irei além. Vou cortar o contato com o mundo sonoro. Assim, evitarei as conversas fúteis — e nem eu assim falarei futilidades — os comentários maldosos, os barulhos da rua, os falatórios e, conseqüentemente, eu não precisarei falar mais nada.
Não incomodarei aos outros, não precisarei me esforçar para ser profundo aos olhos dos meus interlocutores, não será necessário dizer alguma coisa inteligente, engraçada, irônica; será desnecessário dizer algo. Pois já tudo foi dito. Chega.
Na verdade, estou enjoado. São muito estímulos. Que no final das contas não dão em nada. Já imaginei quais seriam os caminhos. Não pretendo decepar as orelhas, os ouvidos. Até porque posso me arrepender. Sem dúvida será melhor me afastar, me isolar, viver em contato com a natureza, pois o consumo de drogas que podem permitir essa sensação é muito oneroso para meu orçamento.
E assim, voltar ao estado natural do homem, do ser humano, não acho que seja em vão. Eu bem sei que viver em comunidade é, desde sempre, um imperativo em nossas vidas. Mas também houve pessoas que conseguiram sobreviver sozinhas e nem por isso foram infelizes. Eu pretendo fazer o percurso contrário. Já conheço “a vida em sociedade”. Agora quero partir.
Lutarei contra o imperativo de que “ninguém tem o direito de se isolar”, a democrática premissa de fazer parte e não ser permitido desistir, contra as pessoas e órgãos criados para nos envolver nessa rede, onde tudo se iguala, onde a distinção não é virtude, onde não passa de pura ilusão na qual precisamos acreditar.
Eu quero voltar a ser um indivíduo. Desejo me encontrar a mim mesmo. Não será olhando para a cara de alguém. Não será do lado de outra pessoa. E o primeiro passo é não ouvir nada, nem ninguém.
Será que isso é como um sonho? Ter imagens, sem som. Será que o meu cérebro ficará mais descansado? Será fácil abrir mão do artifício da música como acompanhamento dos sentimentos, das sensações?
Realmente é uma boa pergunta. O que será? Mais ainda: será uma ótima experiência. Já faz bastante tempo que estou pensando neste assunto.
— Pode começar doutor, estou pronto. Guarde essas minhas impressões em alguma fita, em algum documento.
— O quê? Não há retorno? Não poderei voltar atrás na minha decisão?
— Tudo bem! Que se ferre o mundo! Faça-o de uma vez… faça logo isso! Onde é que eu assino?

Tempo

Tic, tac, tic, tac…
Nascemos, tiram-nos de um lugar confortável. Ali, onde estávamos, não havia risco dos raios do sol, não precisávamos protetor solar, não havia risco de câncer de pele…
Demoramos nove meses em geral para ver aonde fomos cair. Depois, tudo começa a correr, mesmo quando não conseguimos nem ficar em pé, muito menos acompanhar e correr.
Tic, tac, tic, tac…
Com os anos, ajudados pela invenção mais ridícula e perversa que o homem já fez, começamos a sofrer com esse barulho inconsciente. Queremos ser grandes quando somos crianças; sonhamos o tempo todo em ter a vida daqueles que são independentes, daqueles que não precisam responder às perguntas incômodas dos pais, que fazem da vida o que bem querem. Então nossa infância muitas vezes se divide na curtição das brincadeiras e o olhar saudoso dos tempos por chegar.
A adolescência, então, é pior ainda… corremos à procura daquilo que víamos desde pequenos, com mais raiva, com mais empolgação, com maior energia e rebeldia. E seguimos perseguindo aquilo que está por vir…
Tic, tac, tic, tac…
Como é engraçado… agora sendo adultos, as coisas precisam acontecer mais devagar, não é? Aos 40, estamos fora do mercado de trabalho; aos 30, se não casarmos, chamam-nos de “encalhados”; se não criarmos uma família, podemos ser suspeitos de homossexuais, anarquistas, reacionários… Chegamos correndo até aqui… pulando os degraus de dois em dois…
— Preciso acabar logo a faculdade; já tinha que estar fazendo mestrado — é uma das frases mais ouvidas hoje em dia.
Enquanto isso, não damos atenção à própria vida. Passam ao nosso lado pessoas, oportunidades, paisagens, amanheceres que não conseguimos ver, porque estamos dormindo após uma longa noite de estudo, ou cansados demais pela rotina.
Pores de sol que não podemos apreciar, pois devemos voltar para casa, fazer coisas, preparar outras para o dia por vir.
Tic, tac, tic, tac…
Qual era a pressa? Se depois, com tudo isso, nem conseguimos aproveitar uma pequena parte do que vivemos? O que houve com aqueles tempos em que os velhos eram reverenciados, ouvidos porque tinham um acúmulo de coisas para passar? Hoje, são discriminados, esquecidos… injustiçados.
Idade não é garantia de nada, quero deixar claro. Aproveitamento é o que faz uma pessoa ser capaz, interessante, atraente. Com rugas ou não. Afinal, Oscar Wilde entendeu muito bem os sinais que viriam e se acrescentam cada vez mais. Jovens eternos, patéticos bosquejos de realizações que nunca se realizam. Fracassos em muitos casos, mas pelo menos parecendo felizes.
Tic, tac, tic, tac…
O barulho do despertador nos provoca insônia. E a cada golpe do relógio, um golpe seco nos lembra que falta menos um. O que temos feito? Que podemos passar para os outros? E o despertador segue; já são três da manhã e não conseguimos pregar o olho, pois às cinco e meia precisamos acordar; o trabalho espera. Os cartões, o crediário, as obrigações também. Corremos, fugindo de que? Nem sabemos… Corremos… Por isso, nas universidades, são chamadas de “carreiras” as diferentes disciplinas que nos habilitam, abrem-nos portas, iludem-nos…
Tic, tac, tic, tac…
Não é desesperador isto do tic,tac? Será que assim, desta forma, conseguiremos nos dar conta de que é à toa isso tudo?
Talvez sejamos mais soltos, mais alegres se não ligarmos para cirurgias, academias e limpeza de pele. Se o sol é ruim, o hambúrguer também é… e querer fazer tudo certo acaba dando no mesmo. O som do relógio… o tempo. Grande invenção… para nos adestrar. E seguimos nessa.
O esquimó sabe bem que o velho sabe lidar melhor com o contexto. Nas nossas sociedades, é preciso ser jovem sempre. Lamentável é ver como nos auto-enganamos com isso.
No outro dia, vi na praia um cara de uns 40 anos ou mais. Jogava seu vôlei, depois passeava com sua namorada, notoriamente mais nova que ele. Acredito que se gostem. Também acredito que ele precisava se auto-afirmar que ainda “está na parada”. E aí eu refleti sobre mim mesmo.
Já não curto tanto o sexo quanto antes. Prefiro muito mais coisas menos volúveis e momentâneas. Quanto dura um orgasmo? E depois?
O verdadeiro desafio é realmente dividir essa sacanagem… O tempo, ué!. Ver um amanhecer, um pôr de sol, trocar impressões sobre uma paisagem onde nos detenhamos, e perdemos a noção mesmo do que acontece ao nosso redor. Perdemos a noção da invenção. Deitamo-nos na grama, olhamos para cima, e sentimos como tudo começa a girar, porque estamos dando voltas, acima de uma bola gigantesca que não pára de dar voltas, e que nós fizemos questão de quantificar, de colocar medidas. Mas, como se não bastasse — após isso — oferecemos o triste, lamentável e enganoso artifício de que esse mesmo percurso natural seja detido, simulado e pareçamos ou tentemos parecer outra coisa. Perdemos a dignidade há muito tempo. Tempo… é isso mesmo…
Tic, tac, tic, tac…
Meus caros amigos, preciso ir… amanhã eu pego às 6h30… É o relógio, o tempo que corre, eu não escapo… ninguém escapa. Apesar dos Pitanguy’s, das academias, dos protetores fator 200….
— Chato esse ruído, não é?
— Calma.. um dia pára.
Tic, tac, tic, tac… tic, tac, tic, tac…

Outra de terapia

— Bem, hoje estou quase acabando… só falta um paciente — diz o terapeuta meio cansado.
E o paciente chega pontualmente. A secretária o anuncia. Bela secretária…
— Hum. Algum dia vou ter que fazer alguma coisa com ela, afinal é solteira. Mas que diferença faria se fosse casada? Acabou de brigar com o namorado… um babaca, por sinal. É gostosa… é. Eu sei que é. É por isso que a contratei. Bem, não só por isso — reflete o terapeuta, fazendo um exercício analítico para aquecer antes do próximo atendimento.
— Entre aí, entre aí — convida o terapeuta.
E o homem entrou. Claro.
— Deite-se — indica o terapeuta. E o homem o olha de um jeito desconfiado — Bem, se preferir, pode se sentar — acrescenta o profissional, com o objetivo de suavizar o início.
O paciente se sentou. E o olhava. E não dizia palavra alguma.
— Bem, o senhor dirá… — e, dessa maneira, indagou ao homem que permanecia em silêncio.
— Veja bem, doutor, eu não quero falar — disse secamente o paciente.
O terapeuta já conhecia bastante esse comportamento. Havia muitas pessoas que chegavam à sala e faziam essa afirmação. Logo, quando o tempo se esgotava, ele e a secretária, muitas vezes juntos, tinham que tirar o paciente da sala e obrigá-lo a deixar de falar. Primeiro, pedindo-lhe, depois, na marra. E pensou: — Este é mais um que se faz de durão, e depois… já sei o que me espera.
Adotou a estratégia conhecida e praticamente infalível de ficar calado, olhando o paciente. E assim se passaram cerca de dez minutos.
Parecia uma partida de xadrez. Olhavam-se um ao outro. E nenhum fazia movimento algum. O terapeuta se cansou. E disse: — Importa-se que ascenda um cigarro?
Um ligeiro movimento da cabeça do homem, em ambas direções, de forma horizontal, fizeram-lhe entender que não. Que não ligava.
Falhou a tentativa, foi o que pensou o terapeuta. Incomodava-o bastante o fato de não conseguir levar do jeito que ele queria a sessão. Afinal, tratava-se da disputa do poder entre o profissional e quem vem consultá-lo. Embora o poder esteja sempre do lado de quem paga. E foi precisamente isso o que o paciente lhe disse.
— O senhor está ficando nervoso. É porque não falo nada? Na verdade, doutor, estou lhe pagando para isso. Para não falar nada. Essa é a diferença.
— Qual é a diferença? — perguntou, jogando-se para trás, sabendo que começaria agora o papo.
— O senhor está acostumado a que lhe paguem para ouvir. Eu não vim aqui para isso. Pago-lhe para não falar. E para que o senhor também fale o mínimo possível.
O terapeuta ficou surpreso. Meio comovido com semelhante afirmação. Mas estava curioso. Queria saber o raciocínio que levava alguém a agir dessa maneira.
— Muito bem, então. Ficaremos assim, se o senhor quiser. Mas gostaria de saber por que esse receio em falar. Podemos manter uma conversa qualquer. Sobre assuntos triviais. Inclusive sobre a minha secretária… O que lhe pareceu? — perguntou, procurando certa cumplicidade, que entre os homens costuma funcionar logo. Uma mulher.
— Veja bem, doutor — disse o homem — na verdade, é interessante…
— Viu? — interrompeu o terapeuta — fui eu que a escolhi…
— Não doutor, não estou falando sobre sua secretária… estou falando do recurso que o senhor tentou utilizar.
— Mas esse homem está achando o que? — pensou para si o analista, já aproximando-se da irritação. E quando ia dizer alguma coisa, a primeira que ia sair, o homem continuou:
— Interessante como o senhor quer quebrar meu desejo, como quer que eu fale. E eu lhe pergunto: o que são as palavras?
— Olha, veja bem — tentou se acalmar o analista — aqui quem questiona, analisa e tudo mais sou eu… viu?
— O senhor não precisa se irritar. Apenas estou lhe perguntando o porquê do fascínio com as palavras — respondeu calmamente o paciente.
Nestas alturas da conversa, estava difícil saber quem era quem. Mas o analista deu uma mostra de sua esperteza. Em um determinado momento, ele se levantou da poltrona, foi em direção à janela, olhou pra fora e ficou assim, por alguns instantes. Virou-se para o paciente, olhou e continuou a andar para o outro lado da sala. Tudo feito com movimentos bem vagarosos. Foi então que abriu a porta. E voltou a se sentar.
O homem não conseguia entender nada do que havia acontecido. Mas, não fez pergunta nenhuma.
O analista abriu um livro, e começou a dar olhadas. Não lia.
— Escute, doutor — interrompeu o homem — eu sei que talvez seja algo incomum o que peço, mas não quero falar.
— Muito bem, eu não faço questão que o senhor fale. Vou cobrar o mesmo valor pela consulta. Assim, fale uma ou duas mil palavras. Pode ficar à vontade.
— Eu estou à vontade, muito obrigado. O que não gostaria é que o senhor ficasse desconfortável na sua própria sala — continuou o paciente.
— Veja bem, meu senhor… eu não estou desconfortável. Apenas estou curioso para saber o que levou o senhor a tomar uma atitude assim, vir para uma consulta com o intuito de não falar. Sem dúvida, o senhor sabe que é bem mais barato, entrar em um cinema, sentar-se em uma praça, ou até ir para um puteiro, se o objetivo é não falar.
A última observação pareceu chocar ao paciente. Mas reposto, respondeu: — Está vendo qual é o problema? Nem o senhor consegue captar o quid da questão… O senhor já percebeu, doutor… pensou alguma vez que as palavras são veículos de confusão mais do que comunicação?
— Como assim? — respondeu o terapeuta, curioso.
— Pois é. O senhor é um profissional da escuta, compreensão, análise. E mesmo assim, ainda não conseguiu entender. Vou lhe explicar com clareza. Eu não pedi para não falar. O que quero é achar um espaço onde não existam as palavras. O silêncio, não apenas como capacidade expressiva. Mas como valor absoluto. Afinal, doutor, as palavras nos aprisionam. Somos reféns delas. Compreende agora?
O analista ficou alguns instantes pensativo. Não disse uma palavra sequer. Pois agora via que devia escolher as palavras certas, além do momento certo para dizê-las. Nunca havia reparado no que acabava de lhe dizer. E o pior é que era uma verdade, tão óbvia, tão evidente, que nunca havia ligado para isso. E pensava no porquê dessa falha. Dessa desatenção. E concluiu: viver em sociedade dá nisso! Como ninguém repara na trapaça que as palavras nos tendem, ninguém liga para elas. São pronunciadas, jogadas ao vento, sem preocupação nenhuma. E como todos fazem isso, ele acabou fazendo também.
Entrou em uma espiral de raciocínios que o levaram ao estado alfa, como se estivesse fazendo ioga ou meditação. Esqueceu por completo de tudo, e do homem que tinha na sua frente.
— Doutor! Doutor! — ouviu em um momento, e percebeu que alguém estava gritando a escassos vinte centímetros do seu rosto. Era a secretária. Linda, como sempre. Lábios vermelhos, cabelos vermelhos, pele branca. Saia comprida. Observava até os mínimos detalhes dela.
— Doutor! — voltou a gritar a moça — o senhor está bem? É que o paciente foi embora, e deixou o pagamento da sessão comigo, pois me disse que não queria interrompê-lo. Deixou um cheque e eu aceitei. Não há problema, não é, doutor?
Ele a observava… que bela criatura. Se pudesse dizer-lhe quanto gostava dela. Quanto tesão havia nele acumulado. Com certeza ela sabia, não era boba. Aliás, não tinha nada de boba. Se fazia de boba. É uma vantagem que as mulheres têm sobre os homens. Uma mulher boba, neste mundo machista, pode ser desculpada se leva com ela um par de seios fartos, uma bunda de encantar. Um homem bobo está acabado.
O cérebro do analista estava bloqueado. Não conseguia pronunciar palavra, tal o feitiço desse estranho homem que apareceu esse fim de tarde.
A secretária aguardou por alguma palavra, alguma resposta, pois tinha marcado com o namorado para sair, pegar um cinema e passar a noite em um motel. Estava com pressa. Quando percebeu que o analista não dizia nada, disse: — Bem doutor, vou indo, sabe? Até amanhã, se o senhor não precisar de mais nada…
O analista a olhava, quase babando. Na verdade, babando mas para dentro. Fez-lhe um sinal com a mão expressando que podia ir, e outro levando a mão à boca, jogando-lhe um beijo. Um gesto carinhoso, como o que fazem as crianças, quando são bem crianças. Em um mundo onde há maldade, sim. Mas é um outro tipo de maldade. Sem a dureza, sem a crueldade das palavras. Que potencializam o pior, mais que o melhor, das pessoas.

Uma de terapia

Vou lhes confidenciar que minha tarefa, aquela para a qual entreguei muitos anos de estudo profundo, noites e dias de sacrifício, tem suas compensações. Pelo meu consultório passaram e passam casos dos mais diversos. Alguns mais interessantes que outros, mas todos eles mostrando que o gênero humano é uma coisa tão interessante quanto impossível de consertar.
Não vou negar que uma vez ou outra eu tiro algum proveito disso. Não vou ser eu quem negará o aproveitamento que nós, terapeutas, fazemos da fraqueza ou da empatia gerada pela assimétrica relação profissional com pacientes.
Paciente sou eu. E, às vezes, em certas ocasiões, dá raiva a estupidez a que chegam algumas pessoas. Em outras, juro que nem um galão de café fortíssimo consegue evitar meus bocejos, mas os faço silenciosamente, aproveitando também que quem está no divã não consegue me ver.
Entre outras hilárias situações que se apresentaram pelo meu divã, teve um caso verdadeiramente incrível. Pelos fatos e também, vou lhe dar os méritos que merece, à excelente precisão, forma e estilo com os que me foram narrados pelo paciente.
Eu não sei se era um craque na transmissão oral de mensagens ou um desses sádicos que vêm uma vez, em uma consulta, contam uma história destas e somem. E deixam um pobre profissional, cheio de problemas existenciais próprios e alheios, perturbado, curioso e até excitado. A questão é que as coisas que ele contou foram muito curiosas, desde o ponto de vista da teoria psicanalítica, até os pontos específicos da experiência em si.
Sem dar o nome, já que ainda reservo algo da ética profissional, a qual fica cada vez menor, faço este depoimento apenas em virtude de compartilhar com vocês estes elementos, que podem dar uma noção das contradições que todos nós temos e carregamos. Reproduzo, a seguir, a essência da sessão, tentando ser o mais objetivo e fiel na transcrição, pois ela está um pouco manuseada pelas inúmeras vezes que voltei a lê-la, para satisfazer minhas inquietudes, tanto profissionais quanto as mais mórbidas.
— Bem doutor, ouça bem… Eu vim aqui porque não lembro o nome de uma fulana.
— Fulana…
— Perdão, desculpe. Eu sei que não devo falar assim. Não é elegante. Mas é que não lembro o nome dessa…
— Mulher?
— … safada. É… é mulher sim. Mas é safada. Você não sabe… Se soubesse… Uma verdadeira safada. Olha que não sou eu quem diz isto. Ela mesma é que falou. Melhor, não falou; gritou isso.
— Veja bem, vamos tentar organizar isso. Peço-lhe que se acalme. Noto que o senhor está um pouco alterado. O divã é um pouco antigo, mas vou lhe dizer… é até uma antiguidade e, para mim, além do valor econômico que pode ter, ele tem também um grande valor afetivo. Por aqui passaram tantas… pessoas.
— Entendo. Desculpe-me. É que lembro, penso no acontecido e fico uma arara. Quero que o senhor entenda bem, não estou bravo, não estou chateado com ela. É comigo mesmo…
— Ela? Ela não tem nome?
— Trata-se disso. Não consigo lembrar o nome! Olha, lembro-me de cada movimento, cada posição e onde, como e quantas vezes o fizemos. Mas é impossível lembrar do nome. E é claro, do telefone. Porque tem horas que dá uma vontade de ligar para ela. Apenas para relembrar tudo, viu doutor?
— Não vi. Mas posso ver melhor se quiser contar desde o começo…
— Tem razão. Vou tentar me acalmar e contar pro senhor tudo direitinho. Foi um domingo. Estava entediado na minha casa. Sabe aqueles domingos cinzentos? Pois bem, assim estava eu. E decidi dar um rolê. Fui para o shopping. E quando estava chegando, coincidi com ela, que também chegava. Uma dessas mulheres das que não se consegue tirar os olhos. Salto alto, saia apertada de um tecido leve e macio, cabelo curto, batom furioso nos lábios, decote, rasgos delicadamente selvagens. Sabe doutor? Uma dessas mulheres que você sempre quer ter pelo menos uma vez. Uma vez, Senhor. Para assim poder conferir que se pode dar conta do recado, pois vendo-a, tem-se a impressão que é demais, insaciável, faminta…
— Estou entendendo aonde o senhor quer chegar. Lembro-lhe do pedido que fiz há pouco sobre o divã, pois estou notando que na sua empolgação ele começou a fazer um barulhinho estranho…
— Sim, desculpe-me novamente. É que se o senhor a visse, saberia porque eu fico desse jeito. Bem, vou continuar. A questão é que assim que a vi, fui falar com ela e logo me deu seu telefone…
— O meu?
— Não! O telefone dela, ora.
— Não reaja assim, fiz a pergunta porque é necessária, afinal, na minha atividade, uma palavra mal encaixada, que não faça sentido, ou que pareça não fazer… é preciso perguntar novamente.
— Entendo doutor, não se preocupe. É que estou um pouco nervoso desde então. Quero dizer, desde que aconteceu isto que estou lhe contando. Vou continuar, pois assim o senhor terá os elementos.
Assim, este homem me contava que depois de conhecê-la naquele domingo, de pegar o telefone e de se encontrar dois dias depois com ela, foram para a casa dele, conversaram um pouco, beijaram-se mais do que conversaram e acabaram transando. Eu não via onde residia o problema ou a patologia, se havia alguma. Mas o nó da questão estava por aparecer.
— Veja bem, a mulher era boa. Tão boa quanto prometia naquela hora que a vi pela primeira vez antes de chegar ao shopping. Mas no primeiro encontro o senhor sabe como é que é…
— Bem, os encontros são todos os mesmos, aproximadamente quarenta a cinqüenta minutos… ahhh, sim — voltei ao assunto tentando mostrar indiferença com a narração que estava me atrapalhando — o encontro entre duas pessoas que mal se conhecem…
— Pois é… Então decidi marcar com ela no final de semana, com mais tempo. Nós dois estaríamos mais relaxados… sabe como é, né? Então, no domingo ela veio em casa.
Notava no meu paciente certa sequidão na garganta, mas eu não me mexi para trazer um copo d´água. Nem doido estava disposto a adiar a continuação, nem que fosse por dois minutos.
— Da primeira vez, eu tive a impressão de que era uma dessas mulheres que por fora era um vulcão, mas era tímida, até um pouco quieta demais… algo que é fácil controlar e de se conformar. Mas no segundo encontro… doutor…
— Diga.
— Pois, quando fomos pra cama, começou a gritar. Disso eu gosto, gostei. E me excitava mais ainda… mas depois doutor, depois…
— Depois o quê, meu amigo? Depois o quê? — perguntava tentando manter um tom neutro, meio distante, coisa que já estava sendo meio complicada.
— Calma doutor, não é fácil para mim… falar.
— O senhor quer dizer “para eu falar”.
— Não doutor. Acaso o senhor não percebeu que deixei um espaço? É para mim, não para eu. Só depois eu disse falar.
— Olha, o uso da palavra, como eu lhe disse anteriormente… não importa, continue, por favor. Não serve de muito essa discussão meramente lingüística. Continue…
— Bem, onde eu estava?
— Segundo encontro, na parte dos gritos, se eu não me engano…
— Ahhh doutor, o senhor é muito profissional. Dá para notar… Como lhe estava dizendo, começou a gritar. Eu pensei que era apenas excitação. Mas aí… aí doutor, ela começou a falar indecências.
— Olha, não se intimide, pode falar, pode contar. É apenas material da consulta… e de fato, parece ser substancial… e vou lhe dizer mais, é bem normal falar algumas coisas dessas… liberar a libido…
— Sei doutor, mas é difícil. Não sou um homem pacato não. Mas foi a primeira vez que me aconteceu. Entende?
— Entendo, sim… — eu já queria chegar ao fundo da questão, o relógio é inflexível, e não posso fazer exceções — Continue.
— Bem, além dos gritos e das palavras do gênero para esses momentos especiais, palavras sujas, ela fazia questão que a chamasse de “cachorra”, “minha puta”, “vagabunda”… Pedia que batesse na bunda dela… Olha doutor, que fique claro, eu até gostava dela… Tínhamos diferenças, mas era gostosa. E sabia fazer bem, muito bem… Mas quando ela começou a falar essas coisas… tirava-me a concentração, a imagem que eu tinha feito dela… despencou.
— Bem, isso pode ser explicado desde muitos ângulos, perspectivas…
— Não, não senhor. Não quero explicar a atitude dela… Apenas quero entender como eu, idiota, bobo, babaca, fui capaz de me esquecer do nome dela. O telefone até que eu consigo. Mas há mais de uma semana que estou me espremendo o cérebro tentando lembrar do nome da fulana… e não consigo…
— Bem, a primeira coisa que vamos deixar claro é que isso acontece porque a ruptura entre o ideal que o senhor tinha construído e a realidade…
— Não, pelo amor de Deus, doutor, eu quero recuperar esse telefone. Sabe como é, né? Não quero parecer um covarde, alguém que fugiu, um homem que não conseguiu segurar a onda.
— Mas o telefone…
— Sim doutor, eu vim aqui porque me falaram que Freud escreveu sobre a interpretação dos sonhos e não sei quais outros assuntos… e que dá para ler as entrelinhas. Se o senhor puder encontrar o telefone dessa mina nas entrelinhas…
— Veja bem… é um pouco difícil em uma consulta isso. Talvez, se o senhor voltar uma próxima vez… poderíamos ir nos aproximando. Se o senhor não achar ruim, podemos marcar para daqui a dois dias… assim não se passa tanto tempo…
O fato é que ele não voltou. E claro que não consegui achar nunca o telefone certo… mas aprendi várias coisas, e fui pegando informações úteis. O shopping, o horário em que aconteceu o encontro, a descrição da moça. Agora, aos domingos, sejam eles ensolarados ou cinzentos, não deixo de dar um passeio pela área à procura dela. Vocês não sabem os preços bons e as liquidações interessantes que aparecem. Afinal de contas, sou um profissional, e não terei essa sensação da ambigüidade, de construir uma coisa que seja outra, que em certa medida provocou uma amnésia no meu paciente. Agora sei que ela gosta muito… e que eu quero muito… muito mesmo. Porque ninguém merece escutar tudo isso e ficar quieto. É preciso, como cientista, fazer o trabalho de campo. Conhecer o outro lado da história. Até posso oferecer para ela algumas vantagens de um tratamento. E agora que consertei o divã, ele não fará mais barulho…

2 amigos, 1 bar

Ele estava sentado na mesa da esquina, olhava com mirada perdida além do cruzamento das ruas que tinham como ponto de encontro o bar onde ele passava costumeiramente as tardes. Um olhar como aquele de quem não vê, de quem não está enxergando absolutamente nada. Na verdade, os olhos estão observando, analisando o interior, os pensamentos que vêm e vão.
Uma xícara de café já acabado. Um copo d´água a meio beber, migalhas de alguma coisa que ele comeu. Não há toalha de mesa. O composto da mesa — que não é madeira nem plástico — a mantém fria. Assim como o clima lá fora. Chove e venta. Bela tarde para ser passada no café.
Algumas pessoas, meio apressadas atravessavam o campo visual dele, na janela grande e decorada com os menus executivos dos almoços que não conseguiam atrapalhar a visão que se tinha de dentro. Dava para ver as ruas, o movimento, o tédio. Era isso o que ele estaria fazendo? Ou apenas pensando?
Absorto em seus pensamentos, nem percebeu que alguém tinha entrado pela porta que estava bem na sua frente. E enquanto fazia um sinal ao garçom para solicitar uma garrafa de cerveja, aproximou-se da mesa e falou:
— E aí meu irmão, como você está? Bom te ver por aqui…
Ele sentiu o golpe nas costas que esse amigo estava lhe dando. E tirou os olhos de onde eles estavam e os dirigiu aos olhos do amigo que já estava sentando em frente dele.
— Pois é… eu já estou aqui faz… não sei, uma hora? — e virou-se para perguntar pro garçom que se aproximava da mesa com a garrafa e dois copos.
— É… mais ou menos — respondeu o garçom, que completou:
— Dois copos?
— É claro, né? Ou você acha que eu vou beber sozinho? Aqui ficaremos pondo o papo em dia… Caramba, Duda, meu velho… que bom ver você! — respondeu o novo freguês.
O atendente deixou a cerveja, os copos, virou-se de costas e foi pro balcão.
Apesar da visita, ele continuava a refletir, calado, quieto. E o interlocutor o olhava com certo receio.
Tentou quebrar o gelo, o silêncio e o amendoim que veio com a cerveja pedida.
— Fala meu velho, que está acontecendo? Está com algum problema? Posso te ajudar?
— Como? Ah, não, problema nenhum… é que estou pensando, lembrando… sei lá… esse dia assim, chuvoso, cinzento… estava tentando lembrar quando foi a última vez que beijei na boca.
— Iiiih, tá carente? Olha, conheço o remédio para isso… é só ligar para…
— Não é nada disso — cortou secamente, e continuou — o que acontece é que estou tentando me lembrar quando foi a última vez que beijei alguma mulher e que tenha sido bom. Sabe do que estou falando? Aquela coisa de sentir a vontade de beijar na boca.
E ele sublinhou o artigo “a”. Porque sabia que tanto ele, quanto o amigo que tinha na frente, quando sentiam a mera vontade, beijavam. Mas aquela sensação.
— Que porra deu em você? É o dia? Você brigou com alguma mulher? Quem é? Fala! Me conta! — interpelava já quase em desespero, pois além do papo esquisito, o copo já quase estava acabando e o outro, o do amigo taciturno estava quase intacto.
— Calma… Não é isso. É que estou pensando nisso o dia todo. Estava lembrando de que quando éramos garotos havia uma lenda. Aquela que dizia que as prostitutas não beijam na boca. Lembra?
— Sim… — respondeu o camarada e chamou o garçom — Psiu! Traz mais uma — E logo respondeu:
— Lembro, mas até que algumas beijam. Porque quando gostam, beijam e se apaixonam como qualquer outra, ou até mais — concluiu.
Olhava aos olhos do Duda e percebia um olhar perdido, um sorriso que não era tal. E não se agüentou:
— Fala logo! Quê há com você Duda?
Duda olhava para ele com gesto beatífico. Calmo, em silêncio. Tomava-se o tempo necessário para achar as palavras e, assim, esclarecer a seu intranqüilo amigo que não havia doença alguma, que não existia alguma notícia ruim, que era apenas um momento de calmaria que lhe ofereceu refletir sobre um tema sobre o qual nunca tinha parado para pensar.
— Olha só — iniciou Duda, enquanto o amigo estava servindo a segunda cerveja no copo dele e fazia gestos para Duda beber o dele quase com desespero — Falei sobre isso do beijo porque já nem me lembro o que é beijar gostoso. Curtir o beijo. Hoje é como se pulasse essa parte. Quero dizer, beijo, claro, mas é aquela ponte aérea para chegar àquilo que ansio.
O amigo olhava para a cara do Duda e não entendia nada. Levantou-se da mesa e disse: — Com licença, já volto… banheiro… cerveja é foda.
E foi em direção ao banheiro. Pediu a chave no balcão, não sem antes perguntar para o garçom e o caixa, que estavam conversando sobre o jogo de futebol de quem sabe quê dia:
— Ouçam, ele andou enchendo a cara antes de eu chegar? Porque não vejo nem os olhos vermelinhos, nem tem bafo… Mas ele está muito estranho! Falou alguma coisa para algum de vocês?
Os dois disseram que não com a cabeça. O cara da caixa entregou a chave e dispensaram o “investigador”, para que, assim, pudessem continuar a discutir se tinha sido justo o resultado, se houve ou não impedimento no gol.
Saiu do banheiro e foi em direção à mesa novamente. Olhava enquanto ia e percebeu que Duda continuava olhando sem ver, em uma direção imprecisa. O amigo aproximou-se e sentou-se bem na frente do Duda.
— Bem, vamos ver. Esclareça o que há com você, Duda!
— Nada, apenas que o outro dia me dei conta que há muito tempo que não desfruto de beijar ninguém. Mas não é de agora não. Há um tempão disso. O Beijo perdeu o sentido — e Duda disse Beijo com maiúscula, dando-lhe um caráter simbólico, um valor emblemático que somente podia adquirir na conversa, pois já tinha perdido isso tudo na vida real.
— Olha só, Duda — continuou o amigo — não sei o que deu em você. Vim tomar umas cervejas, relaxar, mas se quiser falar, fala logo. Eu estou achando estranho que você, que consegue se dar bem com as mulheres (elas até adoram você), esteja falando isso aqui, agora.
— Talvez justamente por isso, meu irmão. Eu acho que perdi o rumo. Agora, e há muito tempo na verdade, mulher é apenas um recurso para me dar prazer, mas…
— Mas o quê? — reagiu rápido e agressivamente o amigo — O que você está falando, meu irmão? Gosta de sofrer? Acaso você não sabe que nesse assunto é assim mesmo? Se for cordeiro… olha, se for cordeiro… elas degolam você.
Duda olhava o amigo, e lembrava quanta dor tinha passado quando acabou seu casamento. O desgaste das lutas pelos bens, a pensão, os filhos, uma festa com ele, outra festividade com a ex-mulher… Soube nesse instante que não tinha condições de manter seu discurso perante essa torre de mágoas e ressentimentos.
Também reparou nesse momento há quanto tempo eles se conheciam, quantas coisas tinham compartilhado, os momentos e as histórias que podiam completar se um deles começava a contar. Foi nesse instante que viu como o tempo se passou, e também reparou nas marcas que ele foi deixando nos dois. Só naquele momento, quando olhava para o amigo, e ouvia as palavras que ele lhe dizia, que se olhou profundo a ele próprio. As palavras entraram e percorreram cada canto de seu interior. E quando voltaram a sair, ele soube porque veio aquele pensamento sobre o tempo transcorrido.
Olhou, pensou. Olhou, ouviu. Olhou para a janela do bar, e se olhou. E se viu. E finalmente, logo após o amigo acabar a fala, serviu o que restava da garrafa, pediu mais uma cerveja e encarou o amigo.
— Perder a esperança é muito doloroso. Mas o pior não é isso. Estou percebendo que para piorar, estou me tornando cínico. Um beijo é apenas isso. Mas quero saber onde foi que perdi o que vinha com ele. Eu quero saber… preciso saber… se quiser voltar a ter isso.

No balanço

Olha esse céu. Esse azul apenas manchado por umas caprichosas formas brancas, tímidas nuvens que só aparecem para não ficar monótona a paisagem. O verde da costa, cores vivas, fortes. E a calmaria, não chega a ser silêncio não. Fechou os olhos? Está imaginando? Tente, tente… e continue a tentar.
Uma brisa leve faz a água golpear suavemente contra o barquinho, simples. Ouça o barulho. O balanço, eu deitado olhando para o céu, braços abertos, corpo totalmente esticado. Um calor agradável, como aquele que deve haver na placenta, onde nós ficamos nove meses antes de sairmos. Mas aqui há outra beleza. Exuberante, colorida.
Consegue imaginar como eu estou? Um pouquinho distante da praia, sim. Mas dá para vê-la. Não precisei de motor e nem jogar poluentes. Uma vela apenas. Não precisei de tanta coisa para me afastar e sentir novamente aquelas emoções primitivas. Descobrir que gosto muito de coisas simples.
Consegue ouvir o murmurar do vento? O quê está dizendo? E as carícias da água clara, azul, límpida quê estão tentando me avisar?
Seduzido por isto tudo, não consigo entender ainda para quê eu voltarei depois. Na mais completa solidão — se levamos em consideração que estou só, em cima do barco — mas não me sentindo só pois estou pleno, feliz; e assim eu estou com todos os que amo, e transmitindo essa felicidade para os demais.
Por que eu devo voltar? Por que não ficar aqui de vez? Final do ano, sei. Festa, sei. Mas que festa é maior que esta que estou curtindo aqui? Nem sequer estou pretendendo pensar. Nem passou pela minha cabeça me justificar, dizendo que assim posso avaliar esse ano que se passou, e pensar no que está chegando. Bobagens.
Esse papo é para os outros. É o que utilizamos para parecer inteligentes, reflexivos. E o que eu quero é ficar quieto, tranqüilo, namorando tudo isto. E o tempo se passa. Devagar.
Se alguma vez você já passou uma noite inteirinha de vigília, longe das luzes que cegam os sentidos, no meio do nada — que é uma falta total de respeito a tudo aquilo que temos ao nosso redor — deve ter percebido que não fica no escuro. Há clareza ainda. Brilha. A noite é brilhante. Sem precisar de baladas, luminárias, espelhos ou luzes UV.
Por que deveria voltar? Se estou tão à vontade aqui… Tão sossegado, tão eu mesmo. O que é melhor que aproveitar isso tudo, desse jeito? É a primeira vez em muito tempo que consigo relaxar.
Respiro fundo, guardo o ar, encho o peito, e vou largando-o devagar. Nossa! Como é bom!
Acompanhado do balanço, o único balanço que eu desejo… o balanço desse barquinho simples, de vela, sem luxo nem sequer muita tecnologia. È meu berço. Onde quero descansar, dormir e acordar. Passar o ano. Virar o ano. Nesse balanço tenro, suave, gostoso. Só esse balanço no final do ano. O resto é bobagem, palhaçada, fantasia ou, simplesmente, disfarce.
Prove, sinta. E depois você me conta.

Um conto noturno

Cá entre nós, não vou falar de que dirijo um caminhão, ou sou motorista de táxi. São coisas trilhadas demais. Vocês já ouviram histórias dessas aos montes. Ou leram. Mas a questão é que eu tenho um hábito, uma mania, uma curtição. E é ouvir rádio, à noite, enquanto dirijo meu carro pela cidade. Tarde da noite.
E é isso que eu faço para relaxar, e me descontrair do meu dia de trabalho. Mas além de pegar o carro, preciso também ouvir o rádio. E especialmente o show do Marinho, um cara que, além de passar música bacana, é mesmo um show, muito cabeça, muito dez. Eu pretendo não perder uma noite. Porque há coisas interessantes. Porque as pessoas, os ouvintes, ligam. Mas não só os fãs. Pessoas que ouvem, indicadas por outras, e conforme o assunto vai se desenvolvendo, querem participar. Assim, vou passando minhas noites.
Talvez vocês nunca tenham reparado quanto é bela a cidade onde moram durante a noite. Quando a loucura, a voragem abrem passo à calmaria, o silêncio. Apenas as luzes acessas das avenidas, algum cachorro solto lambuzando lixo, o céu que não reparamos no dia a dia, somente para ver se vai chover ou vai fazer sol. A cidade solitária, amiga, é na noite. Para sofrer a solidão, para disfrutá-la também. Para curtir a companhia, ou apenas para pensar, ouvir, e tentar manter, ou aumentar nossa sensibilidade. A noite é amiga do pensamento, aliada dos sonhos e cúmplice das maiores loucuras.
E hoje não vai ser diferente. Vou por mais. Quero respirar o ar solto, livre da noite. Rodando no carro, a janela aberta, meu braço relaxado, apoiado e dirigindo calmo, livre. De olhos bem abertos para ver tudo o que aparecer. Para oxigenar uma alma poluída no cotidiano.
— Olá!!! Boa noite, gente bonita, gente feia, gente legal, marginais da lei. Isto é o show nosso de cada noite. O show que nós fazemos. Participem. Saibam que é isso o fundamento de tudo isto. Eu quero ouvir vocês, troco histórias verdadeiras, ou imaginárias, por músicas e assim faremos companhia esta noite. Como todas as outras — disse o locutor, com voz rouca e amena — hoje ouviremos aqueles que queiram nos ligar e contar alguma coisa e o telefone já está aberto. Mas antes de começar… vamos quebrar o gelo. Wal, coloca já já, a música para abrir nossa noite. Ouçam… e comecem a sentir o clima que teremos hoje… Vamos lá… música no ar.
Vou lhes contar que dirigir assim, com música e sem ninguém nas ruas, é maravilhoso. Dá uma força. Uma sensação de ser o dono desse mundo. Pelo menos por alguns momentos. Acabo esquecendo um monte de misérias cotidianas. Nem me preocupo com o preço da gasolina. Dá para acreditar?
Quantas vezes cada um de vocês voltou dirigindo, ou de ônibus, às 2 da madrugada, numa noite clara? E não bêbados ou com uma vontade terrível de chegar em casa e deitar. Com vontade de descer e gritar aos quatro ventos o nome da pessoa que gostam, ou dar um grito de raiva contida, ou ficar sentado olhando o nada.
— São duas horas e quarenta e três minutos. Uma bela hora para ouvir nossa próxima ligação. Depois dessa música inspiradora… nada melhor. Alô? Quem está falando, por favor?
— Armando.
— Olá,Armando. Como você está? O quê fez você chamar hoje? — perguntou o locutor.
— Eu queria perguntar: por quê a sinceridade se paga? É que eu estou conversando muito com uma colega de trabalho, a gente se entende… sabe? E acho ela muito interessante. Muito cabeça…
— Sim, entendo, Armando… eu sei — interrompeu o locutor com um sorriso cúmplice.
— Mas não, não é aquilo que você está pensando. Não. É que precisava contar para minha mulher. Nunca houve segredos entre nós. E como não quero, nem fiz nada… achei bom falar para ela. Apenas para me abrir e passar segurança para ela.
— Aha… boa atitude, Armando. Muito boa…. e então?
— Pois ela não gostou… nada. — respondeu Armando. E continuou: — é verdade que me chamou hoje para se desculpar.
— Caramba, meu irmão! O que você pretendia, hein? — ele dizia, enquanto dirigia por uma avenida deserta e ouvia o programa. — A mulher precisa ficar na marra. Se você mostrar fraqueza, sinceridade em dose extrema… está ferrado. E continuava a dirigir, se aproximando à lagoa.
O radialista então disse: — Pois é… e acho normal que reaja assim. O problema não está nela… ou você acha, Armando, que se ela falar alguma coisa dessas, você ficaria calmo. Creio que você tem que ser sincero com você mesmo. É feliz com a sua esposa?
Armando respondeu: — Sou sim. Agora não é como foi no início, é claro. A rotina ganhou espaço. Mas gosto muito dela.
— Armando!!! — interrompeu novamente o locutor — se você não é feliz, deve primeiro pensar no que te faria feliz, logo, colocar isso para ela… se achar que ela é quem deve te acompanhar nessa trilha. Veja bem o que vai fazer… sempre, sempre, pense com o coração. Ele é o dono da noite. Foi o único espaço do dia que lhe restou. Boa noite, Armando. Tudo de bom, e obrigado pela sua ligação. — fechou o radialista. E disse: — E agora, para Armando e todas as pessoas com o coração inquieto, vai esta canção. Ouçam-na!
Ele ouvia a música deitado na capota do carro, olhando pro céu rosa de tormenta ameaçante. E ria. E disse:
— Cara, gosta dessa colega? Ela gosta de você? E por que vocês não vão transar direito? Sem rodeios. E tua mulher… não vai saber, não precisa. Às vezes isso salva casamentos. Homem não pode ser molengo. Não pode dar vantagens. Eu sei disso. Se ela te pegar em uma hora de debilidade, você já era, meu irmão!
Uma noite bela, tranqüila, sem vento. Pode até chover. Mas isso também abre as portas para estas coisas. Histórias onde se cruzam, apaixonados, céticos, solitários, jovens, velhos, mulheres e homens. A noite é isso, o reduto que sobrou para que nós, seres humanos, nos achemos novamente pessoas sensíveis. Pois durante o dia, precisamos, na maioria das vezes, colocar o uniforme do trabalho, a responsabilidade, e levamos tudo muito a sério. Perdemos a sensibilidade. Para nos cobrir com a capa da sobriedade, da seriedade, onde não há quase espaço para as emoções do coração.
Eu não sei para que esse pessoal casa. Passam dois, três, cinco anos… e depois acaba. O tempo todo falam da rotina. Será que é isso mesmo? Ou é que acaba o tesão? Ou serão as duas coisas? Eu não sei. Prefiro ficar na minha. Sozinho, de vez em quando faço alguma coisa… quando se apresenta… porque com mulher casada é isso. E na verdade, acho que prefiro. Porque não dá trabalho. Não reclama, não tem direito. Não pega no pé, e ainda há noites que posso fazer isto. Olha se não é bonito. O silêncio… o céu, as luzes, repirar este ar.
— Bem, meus queridos ouvintes — disse o radialista — assim acaba mais uma noite juntos. Mais uma noite em que pudemos liberar essa parte cativa nossa. Aquela que fica presa. Os nossos medos, os nossos sentimentos. Obrigado a todos por compartilhar conosco. E nos encontramos de volta… a cada noite, na mesma hora, no mesmo local. É nosso encontro, com a cumplicidade da noite. Tchau.

29 / 10

Acabaram de dar a notícia. Alegria para uns, tristeza e decepção para outros. Especialmente para a mídia, Lula foi reeleito.
Algumas considerações deixam esta eleição que gostaria compartilhar.
• Cuidado Lula!
Agora e para frente o PT e o governo do reeleito presidente deverão ficar espertos, pois tanto a oposição política quanto a mídia – oposição mais bem organizada e entrosada – estarão de olho para flagrar e plantar se forem necessários, escándalos.
Ao PT corresponde apurar e punir aos responsáveis pelas causas de corrupção do governo, e barrar os dirigentes que agem nas sombras e prejudicam um processo de câmbio social em prol de se perpetuar no poder.
A Lula cabe a responsabilidade de aproveitar esta esmagadora maioria e aprofundar as mudanças que deixou para trás na sua primeira gestão como Presidente da República. E de se cercar de pessoas mais positivas para gerenciar este novo desafio.
• Que acham que o eleitor é?
Burro. Só pode. Algumas frases e termos da patética campanha do segundo turno do PSDB deixam claro isso.
Primeiro, tentando se aproximar da população mais simples, os desamparados pelo Estado Brasileiro que Alckmin e seus correligionários representaram até 2002, chamando àqueles que vivem suando a camisa à beira ou submersos na pobreza de “povão”.
Povão? Se essa palavra não é pejorativa, então eu vivi eternamente a contra-mão e equivocado. E nas publicidades apelaram ao “povão” não sei quantas vezes!
Além disso, Alckmin e sua campanha chamavam a votar em alguém que tinha “trinta anos de vida pública”, e ao mesmo tempo que “sabe cuidar de gente” porque é médico. Alguém sabe a idade de seu Geraldo?
Bem, ele nasceu em 7/11/1952 e já em 1976 foi eleito prefeito com 23 anos. E logo depois deputado estadual 83/87, deputado federal 87/90 e reeleito até 1994. Agora vou fazer uma operação aritmética básica. Se começou à sua vida política com 23 anos e não a discontinuou, onde este senhor arrumou tempo para exercer a função de médico e cuidar de gente? Este argumento, meus caros, não se sustenta por si próprio.
Apenas teve apelo pois muito poucas pessoas tem a disposição de investigar a vida pública dos candidatos, função que deveria realizar a mídia.
Não ponho em dúvida as boas intenções do candidato do PSDB, mas na sua campanha se cheirava enganação, demagogia –como em toda campanha de qualquer partido- e também, algo de subestimação à inteligência do eleitorado brasileiro.
• A função do indivíduo
Primeiro, organizar-se e participar. Reclamar e indignar-se diante de escândalos e atos de injustiça. Fiscalizar, pois quem deve fazer isso é parte interessada e na vida real ninguém cuidados interesses das pessoas melhor que as próprias pessoas já que há uma crise nas instituições. A instituição se auto-representa hoje em dia. Persegue seus próprios interesses.
Estamos acostumados e seguir números, estatísticas, a ter visões macro sem levar em conta às pessoas que estão dentro de essas quantidades que não podem ser tomadas como elementos de avaliação. Pessoas que sentem, respiram, sofrem, festejam e, fundamentalmente, mal que pese a muitos, também, de vez em quando, pensam e escolhem.

Postagens Antigas »