Vou lhes confidenciar que minha tarefa, aquela para a qual entreguei muitos anos de estudo profundo, noites e dias de sacrifício, tem suas compensações. Pelo meu consultório passaram e passam casos dos mais diversos. Alguns mais interessantes que outros, mas todos eles mostrando que o gênero humano é uma coisa tão interessante quanto impossível de consertar.
Não vou negar que uma vez ou outra eu tiro algum proveito disso. Não vou ser eu quem negará o aproveitamento que nós, terapeutas, fazemos da fraqueza ou da empatia gerada pela assimétrica relação profissional com pacientes.
Paciente sou eu. E, às vezes, em certas ocasiões, dá raiva a estupidez a que chegam algumas pessoas. Em outras, juro que nem um galão de café fortíssimo consegue evitar meus bocejos, mas os faço silenciosamente, aproveitando também que quem está no divã não consegue me ver.
Entre outras hilárias situações que se apresentaram pelo meu divã, teve um caso verdadeiramente incrível. Pelos fatos e também, vou lhe dar os méritos que merece, à excelente precisão, forma e estilo com os que me foram narrados pelo paciente.
Eu não sei se era um craque na transmissão oral de mensagens ou um desses sádicos que vêm uma vez, em uma consulta, contam uma história destas e somem. E deixam um pobre profissional, cheio de problemas existenciais próprios e alheios, perturbado, curioso e até excitado. A questão é que as coisas que ele contou foram muito curiosas, desde o ponto de vista da teoria psicanalítica, até os pontos específicos da experiência em si.
Sem dar o nome, já que ainda reservo algo da ética profissional, a qual fica cada vez menor, faço este depoimento apenas em virtude de compartilhar com vocês estes elementos, que podem dar uma noção das contradições que todos nós temos e carregamos. Reproduzo, a seguir, a essência da sessão, tentando ser o mais objetivo e fiel na transcrição, pois ela está um pouco manuseada pelas inúmeras vezes que voltei a lê-la, para satisfazer minhas inquietudes, tanto profissionais quanto as mais mórbidas.
— Bem doutor, ouça bem… Eu vim aqui porque não lembro o nome de uma fulana.
— Fulana…
— Perdão, desculpe. Eu sei que não devo falar assim. Não é elegante. Mas é que não lembro o nome dessa…
— Mulher?
— … safada. É… é mulher sim. Mas é safada. Você não sabe… Se soubesse… Uma verdadeira safada. Olha que não sou eu quem diz isto. Ela mesma é que falou. Melhor, não falou; gritou isso.
— Veja bem, vamos tentar organizar isso. Peço-lhe que se acalme. Noto que o senhor está um pouco alterado. O divã é um pouco antigo, mas vou lhe dizer… é até uma antiguidade e, para mim, além do valor econômico que pode ter, ele tem também um grande valor afetivo. Por aqui passaram tantas… pessoas.
— Entendo. Desculpe-me. É que lembro, penso no acontecido e fico uma arara. Quero que o senhor entenda bem, não estou bravo, não estou chateado com ela. É comigo mesmo…
— Ela? Ela não tem nome?
— Trata-se disso. Não consigo lembrar o nome! Olha, lembro-me de cada movimento, cada posição e onde, como e quantas vezes o fizemos. Mas é impossível lembrar do nome. E é claro, do telefone. Porque tem horas que dá uma vontade de ligar para ela. Apenas para relembrar tudo, viu doutor?
— Não vi. Mas posso ver melhor se quiser contar desde o começo…
— Tem razão. Vou tentar me acalmar e contar pro senhor tudo direitinho. Foi um domingo. Estava entediado na minha casa. Sabe aqueles domingos cinzentos? Pois bem, assim estava eu. E decidi dar um rolê. Fui para o shopping. E quando estava chegando, coincidi com ela, que também chegava. Uma dessas mulheres das que não se consegue tirar os olhos. Salto alto, saia apertada de um tecido leve e macio, cabelo curto, batom furioso nos lábios, decote, rasgos delicadamente selvagens. Sabe doutor? Uma dessas mulheres que você sempre quer ter pelo menos uma vez. Uma vez, Senhor. Para assim poder conferir que se pode dar conta do recado, pois vendo-a, tem-se a impressão que é demais, insaciável, faminta…
— Estou entendendo aonde o senhor quer chegar. Lembro-lhe do pedido que fiz há pouco sobre o divã, pois estou notando que na sua empolgação ele começou a fazer um barulhinho estranho…
— Sim, desculpe-me novamente. É que se o senhor a visse, saberia porque eu fico desse jeito. Bem, vou continuar. A questão é que assim que a vi, fui falar com ela e logo me deu seu telefone…
— O meu?
— Não! O telefone dela, ora.
— Não reaja assim, fiz a pergunta porque é necessária, afinal, na minha atividade, uma palavra mal encaixada, que não faça sentido, ou que pareça não fazer… é preciso perguntar novamente.
— Entendo doutor, não se preocupe. É que estou um pouco nervoso desde então. Quero dizer, desde que aconteceu isto que estou lhe contando. Vou continuar, pois assim o senhor terá os elementos.
Assim, este homem me contava que depois de conhecê-la naquele domingo, de pegar o telefone e de se encontrar dois dias depois com ela, foram para a casa dele, conversaram um pouco, beijaram-se mais do que conversaram e acabaram transando. Eu não via onde residia o problema ou a patologia, se havia alguma. Mas o nó da questão estava por aparecer.
— Veja bem, a mulher era boa. Tão boa quanto prometia naquela hora que a vi pela primeira vez antes de chegar ao shopping. Mas no primeiro encontro o senhor sabe como é que é…
— Bem, os encontros são todos os mesmos, aproximadamente quarenta a cinqüenta minutos… ahhh, sim — voltei ao assunto tentando mostrar indiferença com a narração que estava me atrapalhando — o encontro entre duas pessoas que mal se conhecem…
— Pois é… Então decidi marcar com ela no final de semana, com mais tempo. Nós dois estaríamos mais relaxados… sabe como é, né? Então, no domingo ela veio em casa.
Notava no meu paciente certa sequidão na garganta, mas eu não me mexi para trazer um copo d´água. Nem doido estava disposto a adiar a continuação, nem que fosse por dois minutos.
— Da primeira vez, eu tive a impressão de que era uma dessas mulheres que por fora era um vulcão, mas era tímida, até um pouco quieta demais… algo que é fácil controlar e de se conformar. Mas no segundo encontro… doutor…
— Diga.
— Pois, quando fomos pra cama, começou a gritar. Disso eu gosto, gostei. E me excitava mais ainda… mas depois doutor, depois…
— Depois o quê, meu amigo? Depois o quê? — perguntava tentando manter um tom neutro, meio distante, coisa que já estava sendo meio complicada.
— Calma doutor, não é fácil para mim… falar.
— O senhor quer dizer “para eu falar”.
— Não doutor. Acaso o senhor não percebeu que deixei um espaço? É para mim, não para eu. Só depois eu disse falar.
— Olha, o uso da palavra, como eu lhe disse anteriormente… não importa, continue, por favor. Não serve de muito essa discussão meramente lingüística. Continue…
— Bem, onde eu estava?
— Segundo encontro, na parte dos gritos, se eu não me engano…
— Ahhh doutor, o senhor é muito profissional. Dá para notar… Como lhe estava dizendo, começou a gritar. Eu pensei que era apenas excitação. Mas aí… aí doutor, ela começou a falar indecências.
— Olha, não se intimide, pode falar, pode contar. É apenas material da consulta… e de fato, parece ser substancial… e vou lhe dizer mais, é bem normal falar algumas coisas dessas… liberar a libido…
— Sei doutor, mas é difícil. Não sou um homem pacato não. Mas foi a primeira vez que me aconteceu. Entende?
— Entendo, sim… — eu já queria chegar ao fundo da questão, o relógio é inflexível, e não posso fazer exceções — Continue.
— Bem, além dos gritos e das palavras do gênero para esses momentos especiais, palavras sujas, ela fazia questão que a chamasse de “cachorra”, “minha puta”, “vagabunda”… Pedia que batesse na bunda dela… Olha doutor, que fique claro, eu até gostava dela… Tínhamos diferenças, mas era gostosa. E sabia fazer bem, muito bem… Mas quando ela começou a falar essas coisas… tirava-me a concentração, a imagem que eu tinha feito dela… despencou.
— Bem, isso pode ser explicado desde muitos ângulos, perspectivas…
— Não, não senhor. Não quero explicar a atitude dela… Apenas quero entender como eu, idiota, bobo, babaca, fui capaz de me esquecer do nome dela. O telefone até que eu consigo. Mas há mais de uma semana que estou me espremendo o cérebro tentando lembrar do nome da fulana… e não consigo…
— Bem, a primeira coisa que vamos deixar claro é que isso acontece porque a ruptura entre o ideal que o senhor tinha construído e a realidade…
— Não, pelo amor de Deus, doutor, eu quero recuperar esse telefone. Sabe como é, né? Não quero parecer um covarde, alguém que fugiu, um homem que não conseguiu segurar a onda.
— Mas o telefone…
— Sim doutor, eu vim aqui porque me falaram que Freud escreveu sobre a interpretação dos sonhos e não sei quais outros assuntos… e que dá para ler as entrelinhas. Se o senhor puder encontrar o telefone dessa mina nas entrelinhas…
— Veja bem… é um pouco difícil em uma consulta isso. Talvez, se o senhor voltar uma próxima vez… poderíamos ir nos aproximando. Se o senhor não achar ruim, podemos marcar para daqui a dois dias… assim não se passa tanto tempo…
O fato é que ele não voltou. E claro que não consegui achar nunca o telefone certo… mas aprendi várias coisas, e fui pegando informações úteis. O shopping, o horário em que aconteceu o encontro, a descrição da moça. Agora, aos domingos, sejam eles ensolarados ou cinzentos, não deixo de dar um passeio pela área à procura dela. Vocês não sabem os preços bons e as liquidações interessantes que aparecem. Afinal de contas, sou um profissional, e não terei essa sensação da ambigüidade, de construir uma coisa que seja outra, que em certa medida provocou uma amnésia no meu paciente. Agora sei que ela gosta muito… e que eu quero muito… muito mesmo. Porque ninguém merece escutar tudo isso e ficar quieto. É preciso, como cientista, fazer o trabalho de campo. Conhecer o outro lado da história. Até posso oferecer para ela algumas vantagens de um tratamento. E agora que consertei o divã, ele não fará mais barulho…